Pra fazer política é so abrir a boca

Segundo me informa o Aldo Diego Ibanõs, antigo amigo meu hoje músico residente em Paris, lá existe uma gíria de rua, uma “língua’, usada quase que exclusivamente por jovens e africanos, chamada Vertin. Essa “língua” consiste em inverter as sílabas dentro das palavras (IN-VERT/VERT-IN), ou as palavras em si, ou até as sentenças. Não difere muito dos códigos que os pais usam para escamotear o conteúdo impróprio de conversas das crianças (língua do “P”, etc, etc..) – e do mesmo tipo de código que mais tarde as próprias crianças se apropriam , com objetivos mais lúdicos

Achei muito interessante. A construção/invenção de uma identidade coletiva prescinde ou precede a construção/invenção da linguagem que dá suporte àquela? Só se constrói uma identidade através de uma captura, fechamento da língua através de um sub-código; ou, por outra, na medida em que um que um organismo vai construindo a sua identidade um dos processos correlatos é a inevitável criação de um sub-código que dê conta de enunciar o mundo por essa ótica particular?

Buenas, não sei.

Mas, antecipando um dos próximos posts, e sobre este mesmo assunto – linguagem, poder e identidade -, aqui vai um trecho de um dos livros da saga Duna, chamado O Imperador-Deus.

Trata-se de uma circular imperial para as forças de segurança do Imperador/Ditador Leto II:

“Em todos os principais grupos socializantes, você vai achar um movimento contínuo de obter e manter poder através do uso de palavras. Neste sentido, de doutor ao sacerdote até o burocrata, é tudo o mesmo. Uma população governada deve ser condicionada a aceitar palavras/poder como coisas de fato, confundir o sistema simbólico com o universo tangível. Para a manutenção de tal estrutura de poder, certos símbolos serão mantidos fora do entendimento comum – Símbolos como por exemplo os que lidam com manipulação econômica ou aqueles que definem localmente os parâmetros da sanidade. A incomunicabilidade dessas formas leva ao desenvolvimento de sub-linguagens fragmentadas, cada uma delas sendo um indicativo de que os seus usuários estão acumulando alguma forma de poder. Seguindo este esclarecimento do Processo do Poder, nossa Força De Segurança Imperial deve estar sempre alerta à formação de sub-lingugens”

– Palestra na Escola de guerra de Arrakeen proferida pela Princesa Irulan

“In all major socializing forces you will find an underlying movement to gain and maintain power through the use of words. From which doctor to priest to bureaucrat it is all the same. A governed populace must be conditioned to accept power-words as actual things, to confuse the symbolized system with the tangible universe. In the maintenance of such a power structure, certain symbols are kept out of common understanding- symbols such as those dealing with economic manipulation or those which define the local
interpretations of sanity. Symbol-secrecy of this form leads to the development of fragmented sub-languages, each being a signal that its users are accumulating some form of power. With this insight into a power process, our Imperial Security Force must be ever alert to the formation of sub-languages.”
-Lecture to the Arrakeen War College
by The Princess Irulan

PS 1:Nedless to say, a tradução é meio qualquer nota. è que eu sou muito democrático, no mau sentido da palavra.

PS 2: Ah, o post mais importante da história deste blog ficou adiado. Sem ser o próximo, deve ser o outro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: