“Mone Mone” – trecho II

         Fixando os arabescos ton sur ton no teto do sobrado, paraíso artificial do priapismo, acabei por ter lembranças de Adígio. Em outras épocas, antediluvianas, Adígio foi meu companheiro, chapa, professor, aluno, amante – nunca amigo. Líamos “O Capital”, do Velho, ele por que queria acreditar, eu só por farra. Arroubos juvenis. O teto quase níveo em arabescos me lembrou Adígio porque ele insistia que o branco “era a mais abstrata das cores”. Bem, os arabescos foram desenvolvidos pela civilização muçulmana, onde qualuqer representação figurativa da realidade é um pecado mortal. Então, logicamente, os arabescos no teto branco são uma abstration sur abstration

     Ahn…. escrevo demais. Vícios de um pudico. A Aninha sempre me diz isso: “o que tu vai fazer com esse monte de coisa? Publicar?!?!”. A Aninha, linda, sabe fazer doer.

     Certamente foi por isso, e pelo jeito descuidado como ela se entregava e se entrega, que o Adígio foi tão ligado nela. E, obviamente, é por isso que ela tinha que ser só minha, mesmo que assim, mesmo que só de estimação. Foi então que a Aninha tomou a última, a única decisão completa e certa da sua vida de entregada. Escolheu as minhas almofadas, afinal, nos tempos esfomeados que vivemos, é bem melhor ser um cachorro que uma vaca, exceções feitas à India e à Coréia. 

      Foi assim que ficamos acertados: ela acertou na Loto, eu acertei as contas dela e o Adígio acertou a calçada a 67 km/h, presumivelmente.

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