Nelson Rodrigues colorado e psicografado – 12.22.2006

Amigos, estamos submersos na mais brutal euforia. O internacional é campeão do mundo – ou por outra – o colorado é agora oficialmente dono do mundo: campeões, na verdade, sempre fomos. E melhor, a glória veio da maneira mais espetacular possível. Cada lance do jogo foi um momento de eternidade, uma jóia rara para ser guardada numa caixinha de veludo. Não nos enganemos: foi a maior vitória brasileira de todos os tempos. Não exagero. O internacional derrotou o Barcelona, o time mais caro do mundo, o melhor time do mundo, o time do crack ronaldinho. Outros grandes times conquistaram a glória, por certo – Santos, São Paulo, Flamengo, Corinthians – mas nunca com tal carga de dramaticidade. Senhores, quebro as lanças de um estilo elegante em prol de um discurso de gafieira para dizer: foi a maior vitória de todos os tempos, passados, presentes e futuros.


 

Mas não pensem que um time desses surge assim, do nada. Não. È um longo processo geracional, e de repente, juntam-se num mesmo time um fernandão, um Fabiano Eller, um Iarley. A providência divina faz a sua parte, e surge um Pato, um Luis Adriano e então – eis que – eles se reúnem num mesmo escrete. Dia desses eu conversava com o presidente Fernando Carvalho – ou por outra – conversava com ele um solilóquio imaginário – reclamando das defecções que o time tinha sofrido após a conquista da libertadores. “Nenhum time” – argumentava eu imaginariamente – “nenhum time pode perder jogadores do quilate de um Jorge Wagner, de um Bolívar, de um Sobis, sem prejuízo fatal.” Sabe o que ele me disse, com o olhar varado de luz dos profetas? “Nelson, está tudo nos planos. Tudo segue o curso” Não tive coragem de perguntar que curso era esse – e pensando agora, ainda bem que não perguntei. O gênio tem razões que o idiota deve, por necessidade, desconhecer. Fernado carvalho não é só um líder, é a personalidade mais importante do RS desde Borges de Medeiros e deveria – por justiça – ser eleito governador honorário do estado.


 

E Gabiru? Quantas vezes foi vaiado, cuspido o malhado como um Judas num sábado de aleluia? Senhores, o que fizeram com esse rapaz não tem desculpa. Nem Eichmann merecia isso. E que crime tinha cometido? Nenhum. Aí é que está – o povo não precisa de razão para malhar e cuspir, é assim como um arco-reflexo das multidões. Pois bem, esse mesmo Gabiru, de apelido tão singelo e brasileiro denunciando o pau de arara no seu sangue, foi para esse diminuto Gabiru que estava reservado o momento de ouro. A jogada de Yarley, o monstro de Yokohama, foi algo de inconcebível: uma matada de bola com o drible ao mesmo tempo, depois o passe, preciso, macio, milimétrico. E o resto é historia, amigos, eternamente história.

Paro o texto para atender ao telefone – era Frederico, o Fredelícia, o último dos românticos e o primeiro dos colorados. Ele chorava: “Nelson, campeões do mundo, Nelson!” Soluçava: “Nada pode ser maior!” Que nada pode ser maior que o internacional eu já sabia, os leitores sabiam, as formigas, na sua laboriosa e inútil existência, já sabiam e, no fundo, até mesmo o crack Ronaldinho sabia. Agora simplesmente temos o caneco como prova física do inevitável – os profetas não se deram ao trabalho de prever o triunfo colorado por que não havia necessidade. O titulo mundial do internacional é assim como uma obviedade histórica, uma Gehenna futebolística.

Biblio: “À sobra das chuteiras imortais – crônicas de futebol”. RODRIGUES, Nélson. Cia das letras.

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