Maguila X Holifield (consideração sobre a finitude) – 11.15.2006

Já deve ter sido dito numa mesa de bar que a morte é o único grande tema da arte. Dependendo da bebida, até pode ser. Da aparente contradição entre a auto-consciência e noção de finitude da própria consciência surge a arte, a religião a filosofia e a bebida, entre outras coisas, tudo pra explicar o porquê do fim.
No Mangá Ghost in a shell, um programa de computador autoconsciente chega a conclusão que ser humano significa procriar e morrer. A morte é a finalidade da vida, e no final das contas, ela não tira, mas dá o sentido.


Neil Gaiman está fazendo um filme que se chama “Morte – o grande momento da vida.”, parecido com aquele programa esportivo da Band das tardes de sábado: Gol, o grande momento do esporte. E também tem o seriado cult 6 feet under, cujo bordão no comercial da tv é “morte – você esperou a vida inteira por isso.”. Uma vez eu vi um quadro do espetáculo “Cócegas” com Jorge Fernando, e lá pelas tantas ele começava a berrar apontando pra platéia: “Você vai morrer! Eu vou morrer, os teus filhos vão morrer, senhora do seu lado vai morrer, os teus pais também. Todo mundo NESSE TEATRO VAI MORRER!”


E já que boxe é a “nobre arte”, e comecei falando de arte, acabei me lembrando do nosso Maguila. Lembram dele? Fazendo comercial das duchas Lorenzetti, participando do Aqui e Agora e depois no programa do Tom Cavalcante? E lembramos dele dentro do ringue, claro. Sujeito simpático. Poderia se dizer que não mataria nem uma flor.


No ringue, batia forte, mas não tinha pegada. Raramente nocauteava. E aquele queixo de vidro não ajudava muito também. No auge, chegou a ser No.2 do ranking do CMB, lutando principalmente com galinhas-mortas, pugilistas argentinos e policiais gordos e aposentados em Atantic City. Mas os mesmos que o colocaram no topo estavam preparando Maguila para a morte como um peru de natal.


E ele foi a ceia do Hollifield, que na época estava tendo a carreira admiistrada para enfrentar Tyson. A luta foi em Salt-Lake City, paraíso Mórmon. Maguila foi largado no hotel três dias antes da luta, cercado de neve, sozinho com a patroa. Sabiam falar 7 palavras em inglês, e só três eram úteis: “estroubéri aicecrim” (sorvete de morango) e “xírimpf” (camarão). Passou os cinco dias antes da luta decisiva trancado com a nêga veia, comendo camarão e sorvete nas refeições.


Eu vi a luta. Acompanhava boxe na época. Todo mundo sabia que Holifield também não era pegador, mas era rápido e especialista no contra-golpe. Portanto, Maguila precisava se defender bem nos cinco primeiros rounds e tentar decidir perto do décimo. Quando o 1o. round terminou, o treinador no corner do Maguila, eu acho, deve ter dito “Vai com tudo Maguila! Vai par cima dele!”, por que foi isso que ele fez. Foi pra cima e tomou o contra-ataque. Acabou deitado na lona, com o braço esquerdo estendido e trêmulo, convulsionando e babando. Naquele momento, Maguila valia mais dinheiro em coma do que colocando alguém em coma. Foi preparado para morrer. 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: