O blog do Marcel foi incluído. Tá ali do lado. Isso é só uma amostra. Duca.
Fazendo política bem no meio da rua, na moral
Posted in Criptozôografia, Inficção, perdas de tempos, Utilidade Pública, Vida nas ruas on Agosto 29, 2008 by mauriciook- E os poetas modernos?
- Eu é que pergunto. E os poetas modernos?
- A incomunicabilidade deles…
- Que que tem?
- É um refúgio, é uma defesa contra o mundo? Contra esse mundo malvado? Ou é uma forma tentar se elevar acima do humano?
- Ou abaixo?
- Olha bem: pra quê criar uma língua própria, uma linguagem que já nem sequer aspira a ser coletiva?
- Tipo, pra quê publicar um poema se tu não quer falar aos humanos?
- É. Aham. Isso.
- Sei lá. Acho que o que tu ta dizendo é que o poeta moderno monologa, eternamente. Não é isso? Ele cria um desvio tão grande na linguagem que esta só pode ser corretamente interpretada a partir de dados internos, provindos dela mesma. É uma língua pessoal.
- Beh, imagem grosseira
- Wasteland termina assim: da da da da da. Agora, isso é grosseiro. E bem óbvio. Que tal “Lingua privativa”?
- Mais perto do banheiro. Será que os poetas estão tentando acumular alguma forma de poder criando um código pessoal?
- Claro que sim. Quem não tá?
- Mas ai é que tá. – coisa mesquinha essa desses grandes poetas…
-“Filhos de Orfeu”…
- …é… de resumir a humanidade à eles
- Ou de tentar achar a humanidade neles. Mas quem se importa com a humanidade deles?
- Fora eles?
- É.
- Nós.
- Nós não, tu.
- Bom, tu também ta falando no assunto, né? Há horas. E desenvolvendo…
- Mas é que eu, bicho, na real, sou tu.
- Ah, é. Tinha me esquecido. ¿Eu sou nós ou nós sou eu?
- Esquizóide.
- Poeta.
- Inferno, inferno…
Pra fazer política é so abrir a boca
Posted in Criptozôografia, Iluminação, Prestidigitação mental, Vida nas ruas on Agosto 29, 2008 by mauriciookSegundo me informa o Aldo Diego Ibanõs, antigo amigo meu hoje músico residente em Paris, lá existe uma gíria de rua, uma “língua’, usada quase que exclusivamente por jovens e africanos, chamada Vertin. Essa “língua” consiste em inverter as sílabas dentro das palavras (IN-VERT/VERT-IN), ou as palavras em si, ou até as sentenças. Não difere muito dos códigos que os pais usam para escamotear o conteúdo impróprio de conversas das crianças (língua do “P”, etc, etc..) – e do mesmo tipo de código que mais tarde as próprias crianças se apropriam , com objetivos mais lúdicos
Achei muito interessante. A construção/invenção de uma identidade coletiva prescinde ou precede a construção/invenção da linguagem que dá suporte àquela? Só se constrói uma identidade através de uma captura, fechamento da língua através de um sub-código; ou, por outra, na medida em que um que um organismo vai construindo a sua identidade um dos processos correlatos é a inevitável criação de um sub-código que dê conta de enunciar o mundo por essa ótica particular?
Buenas, não sei.
Mas, antecipando um dos próximos posts, e sobre este mesmo assunto – linguagem, poder e identidade -, aqui vai um trecho de um dos livros da saga Duna, chamado O Imperador-Deus.
Trata-se de uma circular imperial para as forças de segurança do Imperador/Ditador Leto II:
“Em todos os principais grupos socializantes, você vai achar um movimento contínuo de obter e manter poder através do uso de palavras. Neste sentido, de doutor ao sacerdote até o burocrata, é tudo o mesmo. Uma população governada deve ser condicionada a aceitar palavras/poder como coisas de fato, confundir o sistema simbólico com o universo tangível. Para a manutenção de tal estrutura de poder, certos símbolos serão mantidos fora do entendimento comum – Símbolos como por exemplo os que lidam com manipulação econômica ou aqueles que definem localmente os parâmetros da sanidade. A incomunicabilidade dessas formas leva ao desenvolvimento de sub-linguagens fragmentadas, cada uma delas sendo um indicativo de que os seus usuários estão acumulando alguma forma de poder. Seguindo este esclarecimento do Processo do Poder, nossa Força De Segurança Imperial deve estar sempre alerta à formação de sub-lingugens”
- Palestra na Escola de guerra de Arrakeen proferida pela Princesa Irulan
“In all major socializing forces you will find an underlying movement to gain and maintain power through the use of words. From which doctor to priest to bureaucrat it is all the same. A governed populace must be conditioned to accept power-words as actual things, to confuse the symbolized system with the tangible universe. In the maintenance of such a power structure, certain symbols are kept out of common understanding- symbols such as those dealing with economic manipulation or those which define the local
interpretations of sanity. Symbol-secrecy of this form leads to the development of fragmented sub-languages, each being a signal that its users are accumulating some form of power. With this insight into a power process, our Imperial Security Force must be ever alert to the formation of sub-languages.”
-Lecture to the Arrakeen War College
by The Princess Irulan
PS 1:Nedless to say, a tradução é meio qualquer nota. è que eu sou muito democrático, no mau sentido da palavra.
PS 2: Ah, o post mais importante da história deste blog ficou adiado. Sem ser o próximo, deve ser o outro.
Circular II
Posted in Inficção, Utilidade Pública on Agosto 6, 2008 by mauriciook“A joça de escrever blog é que tem que se estar sempre escrevendo. Bom, se esse é o caso, este não é um blog, por que não há constância nem de temas, nem de textos e nem de atualização. Mas o fato é que eu não estou presente o tempo inteiro pra fazer um monte de coisas, incluindo escrever, que aliás deveria estar abaixo da higiene pessoal na minha lista de prioridades. Algum idiota da objetividade geográfica poderia argumentar que este blog poderia ser atualizado de qualquer maneira, pois a Internet está em todo o lugar.
Sejamos menos líricos: nem todo espaço pode ser demarcado fisicamente. Junto com o tempo são a mais poderosas ilusões de unidade já criadas, além de baita desculpa pra não escrever porra nenhuma.
Bola pra frente…”
23/06
Esse é o outro post que eu tinha escrito, tentando justificar a a minha ausência.
O outro era melhor.
Explicação sobre ambos no próximo post, que se chamará
“O post mais importante da história deste blog”
Botando o peixe de volta no mar
Posted in condomínio, Prestidigitação mental, Utilidade Pública on Agosto 6, 2008 by mauriciookBom, foram seis meses sem nenhum post. Tinha muitas coisas pra dizer. Esqueci.
Mas tenho uns tantos posts prontos que usarei com parcimônia, de modo que (ou “modo de que”)
as atualizações não fiquem tããão dispersas. Sei que o banzo mataria os leitores.
Aqui vai uma circular pra ajudar os condôminos e outras alucinações.
“Tanto no pessoal quanto no profissional”
As tardes de domingo pertencem à família brasileira. É nas tardes de domingo que comungamos o nosso desespero diante da segunda-feira de horrores que a nossa vidinha pretensamente cool e verdadeiramente vazia nos reserva. Quem tem família divide este momento terno e existencial, compassado por portas de geladeira abrindo e cinzeiros sendo despejados, com a sua família – quem não tem família inventa uma. E quem melhor do que o nosso Faustão para ser o companheiro de milhões de almas nesse trajeto, espécie de Caronte obeso e com um nome presumivelmente feliz .
(esse barqueiro é uma das minhas referências mais obsessivas. Assim como Nelson Rodrigues eu também tenho obsessões. É a única coisa que tenho em comum com ele além de, como Sócrates na demonstração clássica do silogismo, sermos todos mortais).
Volto ao Faustão, o Caronte feliz das tardes de domingo. É que ele usa, dentre tantas bolinas do seu repertório de comunicador de massas, uma expressão muito curiosa: “Tanto no pessoal quanto no profissional” - que geralmente vem atrelada a algum elogio – a arte suprema do Faustão é elogiar. É uma espécie de Bento Teixeira dos nossos dias, além de Caronte feliz. Pois bem. Tudo isso pra chegar no tema do abandono deste blog.
Declaro que é preguiça.
Tanto no pessoal quanto no profissional.
25/07
Coleção de frases sobre fumar
Posted in Frasismos, Iluminação, Prestidigitação mental, Sacanagem, Utilidade Pública on Outubro 5, 2007 by mauriciook
- Fumar é, antes de tudo, fazer mal a si mesmo e aos mais próximos.
2. “O mundo é o meu cinzeiro”
- “Das 20 pessoas mais velhas dos EUA, 14 ainda fumam ou fumaram por mais de 50 anos.”
3. Fumar é a manifestação derradeira individualidade auto-sacrificada.
É a escravidão libertária.
A solidariedade dos fumantes é resignada e contemplativa.
A solidariedade dos fumantes masca em tragadas
Agentes cancerígenos vestidos de branco bailando no espaço
Engravidam o ar de morte.
1. Através do ato mecânico de fumar, parodiamos a mecanização dos
gestos da vida.
3. Fumar é uma dança repetitiva solitária.
A masturbação também.
Lavar a louça também
Paulinho da viola concerta relógios e compôs a dança da solidão.
- A vida nos parece bem pior sem os anúncios de cigarro.
- Fumar é uma gagueira zen:
- numa carteira
- vinte avisos de que a morte vem.
- Antes das Américas, não havia tabaco. Os Nativos das Américas nos deixaram como herança, como presente de agradecimento aos europeus e descendentes, o cultivo do tabaco.
Os povos americanos nos civilizaram postumamente, portanto.
Antes do verbo emprestado do francês, “fumer”, usava-se a expressão“Beber fumaça”.
humilha, murilo!
Posted in Iluminação, poesia on Setembro 26, 2007 by mauriciookEnxergo
Lacerado pelas palavras-bacantes
Visíveis tácteis audíveis
Orfeu
Impede mesmo assim sua diáspora
Mantendo-lhes o nervo & a ságoma.
Orfeu Orftu Orfele
Orfnós Orfvós Orfeles
Murilo Mendes,In: Convergência. São Paulo, Duas Cidades, 1970.
Projeto mone mone – explicação
Posted in Atualidades, Sinopses diarréicas, Utilidade Pública on Setembro 1, 2007 by mauriciook“mone mone” é o nome (ops. não foi intencional) do texto escrito a 4 mãos por este que vos escreve e o Stefanis Caiaffo, o brilhante apologista das formas não institucionalizadas de radicalismo e amigo íntimo do saudoso Plínio Jabaquara. (http://cartogramas.blogspot.com/)
O trabalho continua em progresso, mas não quer dizer que não possamos brindar os milhares de leitores com trechos.
voilá.
mauricio ok
“Mone Mone” – trecho II
Posted in Inficção, Prestidigitação mental, Prosa, Sacanagem on Setembro 1, 2007 by mauriciookFixando os arabescos ton sur ton no teto do sobrado, paraíso artificial do priapismo, acabei por ter lembranças de Adígio. Em outras épocas, antediluvianas, Adígio foi meu companheiro, chapa, professor, aluno, amante – nunca amigo. Líamos “O Capital”, do Velho, ele por que queria acreditar, eu só por farra. Arroubos juvenis. O teto quase níveo em arabescos me lembrou Adígio porque ele insistia que o branco “era a mais abstrata das cores”. Bem, os arabescos foram desenvolvidos pela civilização muçulmana, onde qualuqer representação figurativa da realidade é um pecado mortal. Então, logicamente, os arabescos no teto branco são uma abstration sur abstration…
Ahn…. escrevo demais. Vícios de um pudico. A Aninha sempre me diz isso: “o que tu vai fazer com esse monte de coisa? Publicar?!?!”. A Aninha, linda, sabe fazer doer.
Certamente foi por isso, e pelo jeito descuidado como ela se entregava e se entrega, que o Adígio foi tão ligado nela. E, obviamente, é por isso que ela tinha que ser só minha, mesmo que assim, mesmo que só de estimação. Foi então que a Aninha tomou a última, a única decisão completa e certa da sua vida de entregada. Escolheu as minhas almofadas, afinal, nos tempos esfomeados que vivemos, é bem melhor ser um cachorro que uma vaca, exceções feitas à India e à Coréia.
Foi assim que ficamos acertados: ela acertou na Loto, eu acertei as contas dela e o Adígio acertou a calçada a 67 km/h, presumivelmente.
“Mone Mone” – trecho
Posted in Inficção, Prosa, Sacanagem on Setembro 1, 2007 by mauriciook- Cristo nunca usou calçado fechado...
- O quê?
- Lembrei agora com esta estória da festa, de entrar descalço.
- Hmm... Lembrou o quê?
- Lembrei que um amigo gritou isso num casamento judeu, numa sinagoga, na hora da quebra das taças,
casamento tradicional, levantou, levantou os dois braços na direção do teto, olhou pro altar e gritou.
- Mas gritou o quê?
- “Cristo nunca usou calçado fechado!!” Não, não...
Ele disse: “Pois saibam que Cristo nunca usou calçado fechado. E que era negro, NEGRO!!”
- Mas por quê ele fez isso?
- Ora, catarse. Não sei.
- E os noivos?
- Os noivos?
- Não ficaram putos com ele?
- Não sei.
- Ele não ficou sabendo?
- Ele não conhecia os noivos.
- E estava lá pra quê?
- Não, estava passando e entrou. Pra fugir da chuva.
- Onde isso?
- Na orla.
- Deveria ter ido à praia.
- Mas era muita chuva...
- E daí?
- O pessoal tem medo dos raios...
- Mas assim compensa. Morrer assim compensa. Morrer de raio na beira da praia, num dia de chuva,
com todo aquele cheiro de mar. Há mortes que compensam.
- Morrer de tédio compensa?
- Nunca.
- E morrer por dinheiro?
- Às vezes.
- E morrer de amor, compensa?
- Cristo nunca usou calçado fechado. E era negro.
- Mas Cristo não morreu de amor.
- Cristo morreu de quê?
- Cristo morreu crucificado.
